Ainda que me sinta na necessidade de romper estritamente com qualquer tipo de distanciação que me pareça albergar em si uma espécie de convencionalidade consentida - ao fim e ao cabo uma ideologia, no sentido muito preciso que ela ganha na contemporaneidade a partir de Althusser, hoje bastante acentuado por Slavoj Žižek: i.e., o de ser inconsciente -, sinto-me igualmente, como se depreende daquilo que estou neste mesmo momento a escrever, obrigado a mantê-la. Obviamente que se encontra aqui em causa a reciprocidade que se estabelece entre a minha representação do blog como uma totalidade coerente, à qual - depois de um impulso criativo primeiro que inevitavelmente ganhou forma e projecto assim que o decidi substanciar num blog -, me submeti, aparentemente, de um modo voluntário, e a representação de todo o outro que leia aquilo que eu escrevo. "Aquilo que eu escrevo", justamente porque só neste movimento de reciprocidade entre a representação que eu faço do blog e aquilo que eu julgo ser a expectativa criada pela representação do outro, como é ridículo!, na verdade a representação da representação que o outro faz da minha representação; só neste movimento é que me posso constituir como autor, ou representar-me como tal.
Tudo isto apenas me conduz à minha "intenção" original de escrita, que era a de falar de algo do qual entretanto me esqueci durante a própria escrita, para depois me lembrar e automaticamente colocar em questão devido ao rumo que essa escrita tinha tomado. No entanto agora ganha uma dimensão enorme e profunda, simplesmente porque sinto despontar nela um sentido que me estava oculto nesse momento supostamente original da intenção primeira e que somente despontou da minha hesitação - palavra cara a Bergson - na escrita.
Demorar, ainda não pensei bem esta palavra. Demoro-me na escrita, estou, permaneço, nela e ao mesmo tempo, justamente, ela demora-se em mim, aparecendo-me como atraso. E não pára de bradar em mim o pensamento de que isto é uma espécie de alegoria literária da experiência de Deus.
sábado, 12 de julho de 2008
terça-feira, 1 de julho de 2008
Algo em mim de podre se desfaz.
Sou como caruma perdida algures na terra húmida do Inverno, aguardando uma - talvez - ilusória redenção no saturnino lodaçal.
Um pouco de nada me sabe escutando-o, pequeno, minúsculo, ínfimo.
É SANGUE ESCORRENDO DA IMENSA FERIDA DARDEJANTE DAS ALMAS, CLAMOR INFINITO DOS MORTAIS ESPÍRITOS; ÉTER DERRAMADO NA SUPERFÍCIE DOS ABISMOS.
sexta-feira, 13 de junho de 2008
Produção
Produzo-me e consumo-me vezes sem conta, ininterruptamente, a uma velocidade tal que me chego a sentir imóvel. Sou aquele que se consuma produzindo-se e que se produz consumando-se; o que resta permanece absoluto, nada.
sábado, 3 de maio de 2008
terça-feira, 8 de abril de 2008
História
A consciência empírica constitutivamente imersa no seu mundo é espacio-temporal; o aqui e agora, este ponto de origem, é já simultaneamente o processo e o seu resultado, não há nada fora de si. O único caminho para a veri-ficação é a construção, a própria acção de recordar o passado é a projecção do presente como seu futuro, devindo aberto às suas possibilidades na impossibilidade de totalizar o passado tornando-o efectivamente presente.
A História é esta memória do mundo, sem exterior, uma construção com raízes no esquecimento e ignorância que a constituem, além de uma consciência atómica reificada. Um aqui e agora que é exteriorizado assim que é recordado ou interiorizado - e assim historicizado - é já a sua origem e o seu sentido.
A História é esta memória do mundo, sem exterior, uma construção com raízes no esquecimento e ignorância que a constituem, além de uma consciência atómica reificada. Um aqui e agora que é exteriorizado assim que é recordado ou interiorizado - e assim historicizado - é já a sua origem e o seu sentido.
segunda-feira, 17 de março de 2008
Conheço
Como é possível o ecoar dos meus passos no silêncio da noite? O que é isto de não ser eu senão no de me ouvir? Fracturado interiormente na distância de caminhar sempre outro não conheço dar que não seja ser-me dado. Conhecer-me a mim mesmo é morrer.
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